Busca

Diabetes mellitus: entenda sobre a doença que atinge cães e gatos

O que é a diabetes mellitus?

Por diabetes mellitus podemos caracterizar o quadro clínico resultante da exposição a uma hiperglicemia crônica, que no cão deve ser maior que 180 mg/dl e no gato normalmente maior que 250 mg/dl para que a doença se manifeste. A glicemia é a taxa de açúcar no sangue, que em cães normais deve ser entre 60-100 mg/dl e em gatos entre 70-170 mg/dl. A glicemia é controlada por diversos hormônios, no entanto, só a insulina (hormônio secretado pelo pâncreas) tem a capacidade de reduzir a concentração de glicose no sangue.

 

Ela é comum em cães e gatos?

É uma doença cada vez mais frequente nas rotinas clínicas, sendo, ao lado do hiperadrenocorticismo e do hipotireoidismo, uma das doenças endócrinas mais comuns de cães, e nos gatos, ao lado do hipertireoidismo, representa uma das principais doenças hormonais de felinos. Apesar do maior conhecimento da doença por veterinários nas últimas décadas e do maior grau de cuidado atual com os animais de companhia por parte dos donos, a doença vem se tornando cada vez mais comum também em decorrência do estilo de vida atual dos humanos e, por consequência, dos animais. A OMS (Organização Mundial da Saúde) considera a diabetes uma pandemia mundial, e a crescente incidência da doença secundária ao sedentarismo, ao ganho de peso e à péssima alimentação tem sido considerada como um dos grandes males do século 21.


Como ela afeta a saúde do cão e do gato?

O estado diabético afeta negativamente a saúde do cão ou do gato acometido pela doença. O estado hiperglicêmico provoca perda excessiva de urina e desidratação, perda de massa corporal, cataratas em cães e, por conseguinte, a perda da visão, bem como déficits neurológicos em felinos, prejudicando a capacidade de locomoção de felinos afetados. Além disso, a pele fica suscetível a infecções em decorrência de uma discreta supressão do sistema imunológico e, por conta disso e da presença de grandes quantidades de glicose na urina, as infecções urinárias também são bastante comuns.

A pelagem tende a ficar seca e sem brilho, com aspecto feio e quebradiço, podendo haver perda excessiva de pelos em quadros não compensados. Cães e gatos afetados sem tratamento tendem a se apresentar clinicamente prostrados e apáticos, fracos e intolerantes a atividades físicas. Além disso, muitos pacientes diabéticos desenvolvem hipertensão arterial sistêmica, que pode trazer complicações cardiovasculares, renais, nervosas e oftálmicas.


Quais são os principais sintomas aos quais os donos devem ficar de olho e se preocupar?

Os principais sintomas de diabetes são a poliúria (micção de volumes de urina excessivos), polidipsia (sede excessiva), perda de peso associada ao aumento do apetite. Eventualmente em cães, a catarata diabética pode surgir associada aos sinais já citados, e em felinos, eventualmente, a postura plantígrada dos membros posteriores pode ser observada. Alguns casos mais graves podem se apresentar com total falta de apetite (anorexia), adipsia (não ingestão de água), vômitos, aumento da frequência respiratória, e até em estado comatoso eventualmente, caracterizando uma complicação da diabetes chamada de cetoacidose diabética.

Diabetes mellitus: entenda sobre a doença que atinge cães e gatos

Há alguma forma de evitar?

Em parte é possível evitar, mas nem sempre. Em cães, um forte componente hereditário está presente, e em mais de 50% dos casos a origem da doença é a destruição das células produtoras de insulina pelo sistema imune. Essa origem é muito semelhante ao que ocorre em humanos com diabetes tipo I, em que o sistema imune destrói as células produtoras de insulina. Normalmente humanos afetados por essa forma da doença são jovens. Como a média de idade de diagnóstico de cães com diabetes é ao redor dos 10 anos de idade, acredita-se que cães diabéticos, em sua boa maioria, apresentem uma forma da doença chamada de LADA (latent autoimmune diabetes of the adult), em português, diabetes latente autoimune do adulto. Quanto a isso, infelizmente não há nada que se possa fazer. No futuro, com o mapeamento genético do cão, poderá ser possível um teste que identifique cães portadores dessa carga genética, e eventualmente algum controle reprodutivo dos mesmos, assim como medidas de manejo que os protejam da doença.

No entanto, diversos outros subtipos de diabetes podem ser identificados no cão. Um tipo comum de diabetes tanto em cães quanto em gatos é a diabetes secundária à pancreatite crônica, uma vez que uma inflamação crônica do pâncreas pode destruir as células produtoras de insulina, levando à incapacidade de controle da glicemia. Em cães, cerca de 20-30% dos casos podem ter esse componente presente. Como a pancreatite em parte tem relação com hábitos alimentares, como dieta rica em gordura, por exemplo, a manutenção de uma dieta equilibrada pode prevenir a ocorrência de pancreatite e, por conseguinte, de diabetes.

Outras formas da doença são chamadas de diabetes mellitus insulinorresistentes, na qual o organismo está respondendo menos à insulina presente, e na verdade esses pacientes têm concentrações exageradas de insulina na circulação, o que a longo prazo desgasta as células produtoras de insulina, levando à incapacidade de produção do hormônio e à transição para um estado de diabetes mellitus insulinodeficiente, como observado na doença secundária ao ataque autoimune ou após pancreatite. Algumas situações comuns indutoras de resistência à ação da insulina são o sobrepeso, alimentação rica em carboidratos e/ou gordura, sedentarismo e inflamações crônicas, por exemplo.

Nos gatos, por exemplo, a absoluta maioria dos pacientes desenvolve um tipo de diabetes mellitus insulinorresistente, semelhante à diabetes tipo II observada em humanos. Normalmente esses felinos são gatos machos castrados, que se tornam sedentários após a castração, e, caso não recebam uma dieta balanceada para a condição pós-castração, também se tornam obesos. A longo prazo, a obesidade representa um importantíssimo fator indutor de ineficiente ação da insulina, levando à perda de função das células produtoras de insulina e diabetes. Para cães, a obesidade também tem sido implicada como um importante fator de risco ao desenvolvimento de diabetes, e dessa forma preconiza-se a manutenção de um peso corporal ideal para cães e gatos de forma a reduzir não só o risco de diabetes, mas também de evitar outras complicações da obesidade, como hipertensão, artroses, maior predisposição a certos tumores, além de problemas respiratórios e dermatológicos.

Outra forma comum de diabetes em cães, especialmente em fêmeas, é bastante semelhante à diabetes mellitus gestacional humana. Durante o diestro (período de cerca de dois meses que sucede a ocorrência de cio – fase de aceitação da cópula por parte da fêmea, normalmente dias após cessar o corrimento vaginal sanguinolento), o perfil hormonal da cadela é muito semelhante ao de uma gestação, que casualmente tem o mesmo período de duração. Esse perfil hormonal provoca intensa resistência periférica às ações da insulina, estimulando o aumento da glicemia no sangue e predispondo à diabetes. Em cerca de 70% das fêmeas, essa forma de diabetes pode ser identificada. Dessa forma, a castração da fêmea canina pode ser vista como um importante fator de proteção ao desenvolvimento de diabetes, uma vez que bloqueia a ocorrência do diestro.

Além disso, a ocorrência de periodontite já foi identificada como um fator de risco à diabetes em humanos e em felinos, apesar de em cães isso não estar completamente esclarecido. De qualquer forma, a manutenção de uma boa saúde oral através de escovação dental e profilaxia esporádica são vistas como fatores de proteção. A prática de atividade física frequente também já foi identificada como um importante fator de proteção, não só por ajudar a manter o peso ideal, mas por também melhorar a sensibilidade à insulina. O fato é que, sem dúvida, a diabetes é uma doença multifatorial, e, frente a isso, o conhecimento dos fatores de risco e de proteção pode estimular a adoção de comportamentos que possam ajudar na prevenção da doença.


Alimentos ingeridos por seres humanos, como doces e pães, e dados aos pets podem colaborar com o surgimento da diabetes?

Pesquisas recentes têm apontado para alimentação com dieta caseira, abuso de petiscos veterinários ou abuso de acesso a petiscos humanos, como pães, doces, guloseimas, etc., como fatores associados a sobrepeso e diabetes. Além disso, cada vez que um alimento doce é ingerido, as células que produzem insulina precisam aumentar sua taxa de secreção de insulina. A longo prazo, isso provoca aumento do peso e pode reduzir a capacidade dessas células responderem adequadamente a um estímulo.

Diabetes mellitus: entenda sobre a doença que atinge cães e gatos

A diabetes pode levar à morte?

Sem tratamento, a diabetes é potencialmente fatal. Até a descoberta da insulina no início dos anos 1920, o diagnóstico de diabetes do tipo I era uma sentença de morte, o que hoje em dia só ocorre nos casos mais graves. Cães e gatos diabéticos podem ter uma expectativa de vida tão grande quanto se não tivessem desenvolvido a doença. Temos alguns pacientes diabéticos em tratamento há mais de 10 anos, contudo, sem tratamento a doença pode levar a óbito em questão de semanas a meses. O quadro terminal da diabetes costuma ser a cetoacidose diabética, um complexo desarranjo metabólico que resulta de uma marcada hiperglicemia (frequentemente maior que 600 mg/dl), desidratação severa, falência renal e redução do pH sanguíneo, que pode evoluir de extrema apatia para coma e óbito em questão de dias sem tratamento.

Normalmente os primeiros meses após o diagnóstico são os mais críticos, e cerca de 25% dos pacientes diagnosticados morrem em até 6 meses do diagnóstico inicial. A média de sobrevida após o diagnóstico é de cerca de 2 anos, mas, como já salientamos, alguns pacientes convivem com a diabetes há mais de 10 anos sem maiores complicações. Nesse sentido, cada caso deve ser avaliado em particular.


Qual é o tratamento disponível?

O tratamento disponível é baseado na reposição de insulina para o paciente diabético, e frequentemente para o resto da vida. Diferentes tipos de insulina estão disponíveis no mercado, e cada tipo de insulina será mais bem aplicado de acordo com variações individuais de cada paciente. Por exemplo, a insulina regular é usada no controle hospitalar da cetoacidose diabética, ao passo que as insulinas NPH, lenta ou glardina são insulinas frequentemente usadas para cães e gatos diabéticos para controle glicêmico em casa.

Para cães, a insulina NPH costuma apresentar os melhores resultados, necessitando de duas aplicações diárias com intervalo de cerca de 12h, associado à alimentação somente no horário das aplicações. O uso de um alimento restrito em carboidratos simples e com elevado teor de fibras e proteínas (por exemplo: Royal Canin Canine Weigth Control) auxilia bastante no controle da glicemia, permitindo o uso de doses de insulina menores e reduzindo as flutuações de glicemia.

Para felinos, normalmente a insulina glardina é a mais utilizada, e apesar de em humanos essa insulina ser usada somente uma vez por dia, em felinos um melhor controle normalmente é obtido também mediante duas doses diárias a cada 12h. A questão nutricional para os felinos também é importante, pois são animais carnívoros, e o uso de dietas com elevado teor de proteínas, moderado teor de gordura e restrito em carboidratos simples auxilia na manutenção da glicemia desses pacientes (por exemplo: Royal Canin Feline Diabetic). No entanto, gatos tendem a se alimentar várias vezes por dia, e esse comportamento é mantido durante o tratamento.

Frequentemente os clientes esperam algum tratamento alternativo que permita a fuga das aplicações diárias de insulina, contudo, cães diabéticos são 100% dependentes de insulina para controle da doença, uma vez que ao diagnóstico a concentração sérica de insulina dos mesmos é praticamente nula, ou seja, quando o diagnóstico é firmado, as células produtoras de insulina não têm mais capacidade de secretar insulina adequadamente. Para os felinos, em muitos casos o tratamento seria possível com uso de dietas específicas, estímulo à perda de peso e prática de exercícios, associado ao uso de hipoglicemiantes orais (medicações que podem reduzir a concentração de glicose no sangue por diferentes mecanismos).

No entanto, essa modalidade terapêutica costuma ser bastante ineficaz, além de só protelar muitas vezes a necessidade de insulinoterapia. Em contrapartida, a orientação atual é do começo do tratamento com insulina, em qualquer paciente felino recém-diagnosticado, uma vez que essa conduta permite a remissão da diabetes em um percentual significativo de casos, caso a causa de resistência à insulina seja revertida, como, por exemplo, a obesidade.

 

Existe cura ou somente controle?

Infelizmente raríssimos casos experimentam a cura da diabetes. Alguns pacientes podem apresentar diabetes transitória secundária a quadros de resistência à insulina, que pode progredir para diabetes permanente, ou sofrer remissão se a causa da resistência à insulina for removida. As situações clínicas em que a remissão pode ocorrer são basicamente o diestro da cadela (desde que a mesma receba insulinoterapia e seja castrada o mais breve possível após o diagnóstico), a obesidade felina (desde que o felino receba insulinoterapia e corrija o sobrepeso) e eventualmente pacientes em tratamento com corticoides ou com hiperadrenocorticismo (síndrome clínica associada à hiperprodução de cortisol pelo organismo), desde que a fonte de corticoides seja removida/controlada imediatamente e a glicemia controlada adequadamente após o diagnóstico de diabetes. Mesmo nessas situações, a doença frequentemente é para a vida toda.

 

Qual é a importância da prevenção e do diagnóstico precoce?

A importância da prevenção está no clássico bordão da medicina "é melhor prevenir do que remediar". Neste caso em especial, o diagnóstico traz uma série de mudanças na rotina do animal e dos proprietários, como a necessidade de manter uma rígida escala de alimentação e aplicação de insulina, bem como a de frequentemente levar o animal para visitar o veterinário. Quanto mais frequentemente um diabético visita seu médico, comumente maior a expectativa de vida desse paciente. Além disso, a doença é dinâmica e diversos ajustes precisam ser realizados caso a caso, o que demanda tempo e dinheiro. Além disso, um paciente colaborativo, um veterinário diligente e um proprietário disposto a fazer a sua parte são fundamentais para o sucesso do tratamento.

Quanto ao diagnóstico precoce, é fundamental o reconhecimento da doença o mais rápido possível, pois isso evita complicações importantes como a cegueira secundária à catarata diabética, perda excessiva de peso e a temida cetoacidose diabética. Também, quanto mais cedo realizado o diagnóstico, dependendo da causa da diabetes, maior a chance de remissão da doença conforme o tratamento aplicado.

 

Há fatores de risco? Quais são eles?

Sim, fatores de risco já identificados em cães e gatos incluem:

Cães: sobrepeso, alimentação rica em carboidratos e/ou gordura, ser fêmea, diestro, idade, raça (poodle, labrador, pinscher, dashchund, cocker, dentre outras), histórico de pancreatite e uso de corticoides.

Gatos: sobrepeso, alimentação rica em carboidratos, castração, sedentarismo, idade, doenças orais, uso de corticoides e ocorrência de doenças recorrentes.

Diabetes mellitus: entenda sobre a doença que atinge cães e gatosComo os donos devem conviver com a diabetes em seus pets?

O ideal é manter a calma, e ver a doença como uma condição séria, porém de fácil manejo, uma vez que, além de revisões frequentes, o fator de sucesso mais importante é seguir as orientações do veterinário, seguindo uma rígida escala de alimentação e aplicação de insulina. Seguindo-se essas orientações, as chances de um bom controle terapêutico são bastante grandes. Além disso, proprietários mais envolvidos com a doença, e que tenham condições de controlar bem seus animais de estimação, podem usar glicosímetros portáteis, como os usados pelos humanos, para fazer controle da glicemia de seus animais em casa. Essa medida costuma oferecer dados importantes do grau de controle da doença, assim como permite que os donos identifiquem situações de descontrole da doença, como hipoglicemia ou hiperglicemia intensa, fornecendo ao veterinário informações mais precisas que ajudarão no controle da doença.

Outra questão importante é sempre monitorar o volume de água aproximado que o cão ou gato ingere num período de 24h, pois essa medida é importante na determinação do grau de controle da doença. O que não se incentiva de forma alguma é que os donos façam mudanças no manejo da insulina, mudando dose ou frequência, ou ainda mudanças na dieta sem o consentimento do veterinário responsável, pois frequentemente ajustes feitos em casa pelos donos são desastrosos e podem resultar em situações graves ou simplesmente descontrole do tratamento.


É mais comum em alguma raça ou idade?

Com relação a raças, em gatos não há predileção racial definida, porém quanto à espécie canina, a doença pode ocorrer em qualquer raça, sendo que algumas são mais frequentemente identificadas, como os sem raça definida, poodles, labradores, pinschers, dashchunds, cockers, fox, yorkshire, dentre outras. De qualquer forma, essa questão de maior ocorrência em certas raças está muito relacionada a preferências locais, nem sempre refletindo uma real predisposição racial. Quanto à idade, a diabetes é uma doença típica de animais de meia-idade a idosos, com uma média de idade de cerca de oito anos ao diagnóstico em gatos e de cerca de 10 anos ao diagnóstico em cães.


Atinge mais cães ou gatos?

A diabetes é bastante frequente em ambas as espécies, não havendo estatísticas locais sobre percentual de ocorrência de diabetes na população canina e felina brasileira. Estudos realizados em países europeus, Estados Unidos e Austrália, por exemplo, acusam prevalência de diabetes variáveis entre < 1 e 2,5% das populações estudadas.



Dr. Álan Gomes Pöppl é Médico-Veterinário com residência em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais, Mestre em Fisiologia e Sócio-Fundador da Sociedade Brasileira de Endocrinologia Veterinária (ABEV). Atua no atendimento endócrino autônomo e é responsável pelo serviço de endocrinologia do Hospital de Clínicas Veterinárias da UFRGS. É também doutorando em Ciências Veterinárias. CRMV/RS 8566

Em parceria com a Royal Canin, a ABEV tornou a Campanha de Prevenção e Controle da Diabetes Mellitus Canina e Felina oficial no calendário anual de eventos para o seu pet. Idealizada e realizada para conscientizar a população sobre a ocorrência da diabetes em cães e gatos, além de alertar médicos-veterinários sobre a prevenção e a importância em realizar exames regulares para detectar a doença precocemente, a iniciativa teve início em 14 de novembro de 2011, data em que se comemora o Dia Nacional de Prevenção da Diabetes para humanos.



Receba nossas notícias

Nome
Email


Quem somos|Publicidade|Fale Conosco