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Você sabia que a obesidade não é um problema exclusivo dos seres humanos? Embora não se tenham dados epidemiológicos mundiais, estima-se uma prevalência de 20 a 50% desse distúrbio de origem nutricional em animais de estimação como cães e gatos, com variações que vão de acordo com a região.

O que talvez você não saiba é que, segundo estudos, lares onde as pessoas são obesas e sedentárias oferecem uma probabilidade maior de que os seus animais de estimação também desenvolvam o problema, já que dificilmente o problema é notado.

Por isso, a fim de esclarecer algumas dúvidas sobre a obesidade em animais de estimação, convidamos o médico-veterinário Dr. Ricardo Souza Vasconcellos para esclarecer algumas questões sobre o papel da alimentação nesse processo e como os donos podem estimular a atividade física para prevenir o problema.

 

Qual é a "culpa" da alimentação na obesidade de cães e gatos?

Os alimentos em si não são os culpados, mas sim as quantidades desses alimentos que são oferecidas aos animais que são os principais fatores que levam ao ganho de peso. Por exemplo, independentemente se o cão ingere somente ração ou se ingere somente comida caseira, o que deve ser feito por parte do proprietário são ajustes na quantidade para evitar o ganho de peso. Nesse caso, o médico-veterinário deve, sempre que possível, instruir os proprietários sobre como avaliar a condição corporal do animal (escore corporal) para que o proprietário mantenha seu cão ou gato sempre no peso ideal.

 

A alimentação deve privilegiar a ração ou também é possível oferecer alimentação balanceada ao animal de outra forma?

A ração, desde que de boa qualidade, é considerada um alimento completo, pois possui TODOS os nutrientes necessários para a manutenção da saúde em um animal saudável. Se essa ração for oferecida como única fonte de alimento ao animal, juntamente com a água, nenhum outro tipo de alimento será necessário. No entanto, muitos proprietários acreditam que seu animal não gosta de ração e preferem recorrer ao alimento caseiro, por ser mais palatável que algumas rações. Nesse caso, ele deve estar ciente de que, se oferecer comida caseira ao animal sem a orientação de um profissional, há grande possibilidade de o animal não estar recebendo todos os nutrientes necessários. Portanto, pode-se oferecer comida caseira ao cão ou gato, porém, desde que formulada por um nutricionista ou nutrólogo para assegurar que todos os nutrientes estejam presentes nesse alimento.

 

Além da alimentação, existem outras causas da obesidade nos animais?

O método de alimentação ao qual o animal está sujeito e a quantidade de alimento oferecida são os principais causadores da obesidade, no entanto, muitos outros fatores estão envolvidos no ganho de peso. A obesidade é considerada uma doença multifatorial, pois muitos fatores contribuem para o mesmo resultado final, o acúmulo de gordura. Além da alimentação, contribuem com o ganho de peso a baixa atividade física, a idade, a castração, distúrbios endócrinos (hipotiroidismo), uso crônico de corticosteroides, oferta de petiscos e outros tipos de alimentos somados à ração, entre outros menos importantes.

 

O metabolismo dos animais domésticos na perda de gordura é diferente do metabolismo dos humanos? Se sim, quais são algumas das principais diferenças?

O metabolismo do cão e do gato é naturalmente diferente do metabolismo humano, mesmo em condições normais de saúde. Da mesma forma, o metabolismo do cão também é diferente do metabolismo do gato, sendo as dietas dessas duas espécies diferentes em termos nutricionais. Esses animais são mais eficientes na utilização das gorduras e proteínas para a produção de energia do que os seres humanos. Dessa forma, a principal diferença nas dietas dessas espécies e do homem diz respeito ao teor de proteína e gordura, entre outros fatores, sendo a necessidade proteica do gato ainda mais elevada do que a do cão.

Ao se estabelecer um regime para a perda de peso, reduzimos a oferta de energia para os animais, para que o organismo utilize seu excesso de gordura para produzir energia, perdendo peso dessa forma. Portanto, o ideal é que se perca gordura sem perder massa muscular ou desenvolver qualquer deficiência de vitaminas e minerais no organismo. Para que isso ocorra, as dietas para perda de peso apresentam maior quantidade ainda de proteínas e aminoácidos, além dos minerais e vitaminas, uma vez que os animais vão ingerir menor quantidade de alimento. Uma dieta para perda de peso em gatos pode ter entre 40-50% de proteína e entre 30-40% para cães, diferentemente de seres humanos, nos quais a concentração desse nutriente na dieta não chega nem à metade desses valores muitas vezes.

Em outros aspectos, o regime para perda de peso em humanos e animais se assemelha, como, por exemplo, na prática de exercício físico, na alimentação maior número de vezes ao dia e na regulação da perda de peso para que seja saudável. Deve-se ainda lembrar que a dieta para perda de peso nessas espécies apresenta maior teor de fibras, visando reduzir a sensação de fome e a energia do alimento.

 

É possível estimular atividades físicas nos animais a fim de combater a obesidade?

Sim, isso é plenamente possível. O problema é o proprietário ter tempo ou disposição para isso. Mesmo os gatos, que são considerados animais sedentários e independentes para as brincadeiras, podem ser estimulados à prática de atividade física visando prevenir ou tratar a obesidade. São práticas que podem ajudar no combate à obesidade os passeios na rua, as brincadeiras ou até mesmo atividades físicas de treinamento físico (agility, corridas, exercícios de resistência e força e o adestramento), o enriquecimento ambiental, colocação de comedouros e bebedouros em locais estratégicos visando maior esforço para alcançá-los, utilização de brinquedos que desafiem os animais, entre outros. Muitos proprietários não têm tempo para passear com seus animais e, nesse caso, pode-se recorrer aos chamados "pet sitters", que são pessoas que prestam serviço de interatividade com os animais. Existem clínicas e hotéis para cães e gatos também especializados nessas atividades.

 

Quais são as recomendações para a prevenção do problema?

O grande problema da obesidade em animais de companhia é a proximidade que os animais estão tendo com o ser humano, sendo considerados atualmente membros da família. Dessa forma, muitos dos problemas enfrentados por nós também passaram a se manifestar nesses animais. Existem estudos mostrando que nas casas em que as pessoas são obesas e sedentárias existe maior probabilidade de o animal também sofrer com a obesidade. Existem ainda estudos mostrando que o proprietário demora a reconhecer o ganho de peso do seu animal, subestimando-o.

A prevenção começa com recomendações do médico-veterinário para os proprietários desde que o animal é atendido na clínica quando filhote. O médico-veterinário deve instruir o proprietário a reconhecer a condição corporal do seu cão ou gato e ainda o estimular a pesá-lo periodicamente, corrigindo a quantidade de ração sempre que necessário, visando manter a condição corporal ideal. O proprietário deve ainda ser estimulado a passear com seu animal sempre que possível. O médico-veterinário deve ainda instruir o proprietário quanto à educação do seu animal, pois muitos dos problemas podem ser evitados com o conhecimento do comportamento dos animais, tais como (evitar – excluir)o comportamento por súplica de alimento, (evitar – excluir) o animal ao redor da mesa nos momentos de alimentação, entre outros.

Apesar de existirem muitas medidas simples para contornar o problema, infelizmente a obesidade em animais de companhia está seguindo os rumos da obesidade em humanos e, em minha opinião, uma das medidas mais importantes na prevenção da obesidade em animais de companhia será a mudança do estilo de vida dos seres humanos, que por sua vez será transmitida aos cães e gatos, tão próximos dos seres humanos atualmente. Isso não exclui a necessidade das ações preventivas por parte dos médicos-veterinários, citadas acima, pois muitos erros de manejo são cometidos por falta de informação.

 

 

Dr. Ricardo Souza Vasconcellos é graduado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Viçosa-MG; Mestre, doutor e pós-doutor em Nutrição de Cães e Gatos pelo programa de Pós-graduação em Medicina Veterinária, na área de Clínica Médica, pela UNESP/Jaboticabal-SP. Atualmente é professor do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá e do curso de Medicina Veterinária da Faculdade Ingá, Maringá-PR.

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