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Você se incomoda com o barulho dos rojões em dias de jogos de futebol ou em outros tipos de comemorações? Quem também pode não gostar nem um pouco das explosões é o seu cãozinho de estimação, que possui uma audição bem mais sensível do que a sua. Saiba como amenizar o incômodo que as bombas podem causar ao seu pet e até mesmo prevenir possíveis perdas de audição com as dicas do Dr. Carlos Artur Lopes Leite, responsável pelo Setor de Clínica de Pequenos Animais do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Lavras - MG.

 

A audição dos cães é mais sensível que a dos humanos? Por quê?

Os cães possuem uma capacidade auditiva diferente do ser humano. Assim, para efeitos de comparação, o ouvido canino é capaz de perceber sons com frequência entre 10 Hz (Hz = Hertz, uma unidade de medida da frequência de uma onda) e 40.000 Hz; já o homem percebe sons na faixa de 10 Hz a 20.000 Hz. Além disso, os cães conseguem detectar sons quatro vezes mais distantes que o ser humano. Isto acontece por razões de evolução e adaptação: o ser humano, com seus olhos posicionados bem à frente (ao contrário dos cães, que são mais laterais), consegue focar um objeto com maior precisão, além de ter um campo visual maior. Com esse aprimoramento da visão, a audição ficou em segundo plano. Nos cães, há maior dependência do sentido auditivo que nos homens; assim, sua audição deve "compensar" a sua visão. Por fim, o ser humano se tornou tão especializado em suas faculdades mentais (cognição e raciocínio) que a audição é apenas mais um suporte ao processo (junto com todos os outros sentidos).

 

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Fonte: Dr. Carlos Artur Lopes


Em períodos de festa junina ou em dias de jogos de futebol, costumamos ouvir os famosos fogos de artifício e bombas, que incomodam (e muito) os cãezinhos. O que esse tipo de barulho pode ocasionar aos animais?

O deslocamento de ar provocado por estas explosões é que causa o estrondo que ouvimos. Aparentemente, se um artefato deste explodir muito próximo ao cão, pode ocorrer dano físico ao tímpano (ruptura ou laceração), comprometendo a audição. Para sons não tão próximos, o que conta é o efeito psicológico, pois o cão associa aquele barulho intenso e pouco comum com a movimentação e a desordem que normalmente ocorrem nestes períodos (jogos, festas, etc.). Desta forma instala-se um quadro de fobia que pode, inclusive, resultar em um quadro sintomático de ansiedade, tremores, taquicardia (aumento da frequência cardíaca), vocalização excessiva (chorar, ladrar, latir) e até mesmo óbito em casos extremos.

 

Existe alguma forma de impedir que o meu animal sofra com o barulho dos fogos?

O que o proprietário pode fazer é prever eventos que tenham mais utilização de fogos de artifício e colocar em prática uma série de medidas que podem mascarar o acontecimento ou desviar o foco de atenção do animal. Alguns procedimentos devem ser evitados, como ficar com o cão no colo, como se quisesse consolá-lo (ele vai entender que o comportamento emitido naquele momento está correto e sendo recompensado) ou alimentá-lo no momento dos fogos (forneça a comida pelo menos uma hora antes ou dê pequenas porções escondidas em brinquedos). Algumas medidas podem ser adotadas, como: colocar algum som mais alto e suportável ao cão no ambiente (como música ou televisão); enriquecer o ambiente do animal com brinquedos ou desafios para que este possa ter sua atenção desviada (bolinhas, túneis, caixas de papelão entreabertas); se ele insistir em se esconder, permitir que sua cama ou casa fique em local resguardado e abrigado (como no canto de um sofá ou debaixo de uma mesa); evitar o acesso a locais potencialmente perigosos (varandas, janelas e piscinas); colocá-lo em contato com outros cães, preferencialmente que não se assustem com barulhos; e fechar cortinas, portas e janelas (buscando minimizar o som). De qualquer forma, cães que ainda sofrem nestas situações podem ser manejados sob tranquilização/sedação (com estrito controle do médico-veterinário) ou passar por um processo de adestramento conhecido como dessensibilização (o cão é, progressivamente, colocado em contato com sons cada vez mais altos, até se "acostumar" com o barulho de fogos de artifício). Essa última alternativa deve ser feita com pessoal especializado neste tipo de condicionamento (uma boa dica é pedir informações às associações de raça; nunca aceite a ajuda de práticos ou "adestradores de fundo de quintal").

 

Quais sinais são possíveis de ser notados quando o cão está perdendo a audição?

Antes é necessário definir quais os tipos de perda auditiva. Existem perdas auditivas de apenas um ouvido (chamadas unilaterais) e aquelas dos dois ouvidos (bilaterais). Adicionalmente, pode-se ter uma perda total da audição (tecnicamente conhecida como surdez ou acusia) e uma parcial (hipoacusia). Nunca podemos falar que um cão com perda parcial da audição é surdo, mas sim hipoacúsico (ele ainda escuta alguma coisa, ao contrário do primeiro). Quando o cão inicia um processo de perda auditiva, uma das primeiras observações que o proprietário faz é que o pet muda o seu comportamento: fica mais arredio (ou agressivo); não responde ao chamado do dono ou ao escutar algum som; e gira a cabeça várias vezes em muitas direções diferentes (não focando para o local de origem do som). Um filhote que já nasce surdo (bilateral) tende a assumir um comportamento mais arredio (mantendo-se mais afastado dos seus irmãos de ninhada), tendo dificuldade para mamar. Com o seu crescimento, torna-se cada vez mais agressivo e pouco social logo nos primeiros meses de vida. De qualquer forma, a única maneira de se diagnosticar definitivamente problemas auditivos em cães é submetê-los a exames específicos conhecidos como determinação do potencial evocado do tronco cerebral (tecnicamente conhecido como BERA, Baer ou REACT) e audiometria de impedância. Apesar de rotineiros na área humana, apenas duas universidades brasileiras possuem a capacidade de executar tais testes em animais. Todos os demais testes clínicos apenas sugerem a perda auditiva, mas não a diagnosticam definitivamente ou apontam qual o real problema que está levando a este quadro. De qualquer forma, a sugestão ao proprietário que acredita que seu cão está perdendo a audição é levar o pet ao veterinário, pois este poderá apontar a causa desta possível perda, podendo estabilizar ou minimizar o quadro instalado.

 

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Cão em procedimento de audiometria para diagnóstico de perda auditiva. (DMV/UFLA, 2012)


Qual é a melhor forma de melhorar a qualidade de vida dos animais que perdem a audição e quais adaptações podem ser feitas no dia a dia?

Um cão surdo possui uma grande adaptabilidade ao meio, mas algumas modificações de hábito e no ambiente deverão ser feitas. Cães que possuíam livre acesso à rua e agora estão surdos deverão ser monitorados de perto por uma pessoa; o fato de não escutarem sons pode favorecer a ocorrência de acidentes com automóveis, bicicletas e outros animais. Se a causa da perda auditiva for identificável, o proprietário deverá recorrer ao tratamento da mesma (como o uso de medicamentos indicados pelo veterinário). Também é aconselhável que aqueles cães de guarda que desenvolvam problemas de audição sejam avisados visualmente da chegada do dono, pois podem atacar o proprietário se não o virem direito (lembre-se que o cão já não consegue identificar as pessoas pela sua ultrassensível audição, restando apenas o olfato – também poderoso, mas insuficiente – e a visão). Ao chegar em casa, o proprietário deverá se mostrar, à distância, ao cão e não entrar bruscamente no quintal ou garagem onde o pet está.

 

 

Dr. Carlos Artur Lopes Leite é médico-veterinário graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Micologia Médica pela Carl von Ossietzky Universität (Alemanha). É também mestre em Medicina e Cirurgia Veterinárias pela UFMG e doutor em Clínica Veterinária pela Unesp de Botucatu-SP. Atualmente, é responsável pelo Setor de Clínica de Pequenos Animais do DMV/UFLA (Lavras/MG).


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